Cidades
ONGs contestam intenção da prefeitura de adquirir cão para a GMVR
02/08/2022 14:42:46
A intenção da prefeitura de adquirir, por meio de licitação, um cão farejador para a Guarda Municipal de Volta Redonda (GMVR), está mobilizando a Sociedade Protetora dos Animais (SPA) da cidade e a ONG Vira-Lata. As duas entidades divulgaram uma nota de repúdio à iniciativa (veja íntegra no final do texto) por considerar que não foram tomados os cuidados necessários com os cães que que já serviram à corporação.
A licitação aberta pela prefeitura – no valor de R$ 23,1 mil – está marcada para o próximo dia 8. Pelo que foi publicado, o animal deve ser fêmea, com idade mínima de nove e máxima de 24 meses – por questões de adestramento – e da raça pastor alemão ou belga malinois.
A presidente do Vira-Lata, a fotógrafa Liz Guimarães, diz que a nota foi motivada pela constatação de falta de cuidados com atendimento veterinário, local insalubre e falta de alimentação adequada aos cães adquiridos pela GMVR em 2017, além de denúncias recebidas pela ONG de que os animais teriam sido levados para cruzar fora da corporação. O símbolo da falta de cuidados, segundo as ONGs, seria Scott, um cão pastor que não teria recebendo os devidos cuidados, mesmo estando na velhice. O animal, segundo as ONs foram informadas, morreu há duas semanas.
De acordo com as duas ONGs, em 2018, defensores constataram que os cães mantidos pela GMVR – Scott e Dodge, que morreu naquele ano – não tinham registro de vacinas, apresentavam problemas de saúde crônicos, eram mantidos em canis impróprios e recebiam alimentação inadequada ao tipo e às raças dos caninos. Desde aquele ano, segundo Liz, tentava-se uma adoção para Scott, o que ela considera que era impossível, pois a adoção deveria ter sido providenciada quando o pastor era mais novo.
“Não houve nenhum empenho [da prefeitura] para a adoção. A gente veio tentando há três anos, mas ninguém adota um cão com 10 anos de idade cuja média de vida é de 12 anos. Ele não se dava com outros animais, sobretudo com gatos. Tinha doenças. Ninguém quer um cão idoso e pesado, dispendioso”, diz a presidente do Vira-Lata.
As duas ONGs questionam também que outros três animais que serviram à corporação – os rotweiller Conan e Atena e o fila brasileiro Maia – “em pouco tempo evaporaram do local”. A informação é que teriam sido doados para guardas municipais, mas não se sabe os critérios.
“Infelizmente, quando já não atendem às demandas, [os cães] são colocados para adoção sem qualquer critério e sem benefícios garantidos, como veterinários, medicação e ração, o que seria pertinente e justo”, diz um trecho da nota divulgada.
De acordo com, as duas entidades estão encaminhando também um ofício ao prefeito Antônio Francisco Neto e ao comando da GMVR, solicitando que a licitação não seja realizada. Na GMVR, eles tiveram conhecimento da morte de Scott. "Ninguém nos avisou", lamentou Liz.
O FOCO REGIONAL entrou em contato com a prefeitura a respeito da manifestação e aguarda uma resposta.
A íntegra da nota
"As ONGs Vira-Lata e SPA-VR, vem manifestar o seu repúdio em decorrência da licitação da Prefeitura de Volta Redonda-RJ, para compra de um cão farejador para a Guarda Municipal.
Nos últimos anos, recebemos diversas denúncias quanto aos animais mantidos pela Guarda Municipal de Volta Redonda-RJ. Além disso, testemunhamos, perplexos, o confinamento, a negligência com atendimento veterinário, o local insalubre, a falta de ração e até o uso e deslocamento dos animais mantidos pela GMVR, para cruza fora da corporação.
Entre os anos de 2017 a 2021 as ONGs Vira-Lata e SPA-VR fizeram parte do Conselho Municipal de Proteção e Defesa Animal - CMPDA do município, assim como a Guarda Municipal. A partir de denúncias recebidas, as ONGs, através do CMPDA, se mobilizaram no sentido de acompanhar de perto a situação dos animais da Guarda Municipal.
No ano de 2018, após várias visitas com intuito de verificar a situação, diversos problemas com os animais foram identificados, tais como: falta de registro de vacinas, problemas de saúde crônicos, canis impróprios e alimentação inadequada ao tipo e às raças dos caninos. Na ocasião, Dodge e Scott, dois Pastores Malinois se encontravam nos canis. Dodge morreu no mesmo ano e Scott foi disponibilizado para adoção, tardiamente, com 10 anos de idade, por já não atender às demandas da corporação.
Como se não bastasse a situação de maus-tratos caracterizada aos cães que se encontravam nos canis, outros três animais foram adquiridos pela corporação: Conan, Atena e Maia, dois cães da raça Rotweiller e um Fila brasileiro. Em pouco tempo, os três animais evaporaram do local. As notícias são de que foram doados, obviamente sem critério, para guardas.
Diferente do velho Scott, estes animais despertaram enorme interesse dos membros da corporação, por serem jovens e por não estarem castrados.
Nos últimos 3 anos com o consentimento da GMVR, acordado em Assembleia do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos animais de VR, a ONG Vira Lata tem tentado, exaustivamente, doar o único cão sobrevivente, Scott.
Com o suporte e acompanhamento da ONG Vira-Lata, Scott passou por consultas, exames, tratamentos, vacinação, sessão fotográfica e participou, ainda, do Calendário de 2022 da ONG, no intuito de conseguir um bom lar.
Muitos interessados apareceram, porém, incompatíveis com sua personalidade. Scott chegou a conseguir um lar, por 15 dias, porém, a adoção não foi consolidada.
Frisamos que a tentativa de conseguir um lar para Scott tem sido um esforço de mão única, pois a Prefeitura desse município JAMAIS FEZ QUALQUER PUBLICAÇÃO sobre a adoção do referido animal em seus canais de comunicação, nem tampouco prospectou matéria na mídia ou fez algum comunicado interno, disponibilizando o cão para adoção.
A Prefeitura Municipal de Volta Redonda falhou gravemente, em retardar sua “aposentadoria”. Scott é um cão de porte grande e idoso e, por isso, dispendioso.
Vale ressaltar que o termo “aposentadoria” consta neste texto apenas de forma elucidativa, já que NÃO existem políticas públicas éticas para o segmento de animais de trabalho, animais esses que deveriam ser tidos como servidores públicos.
Infelizmente, quando já não atendem às demandas, são colocados para adoção sem qualquer critério e sem benefícios garantidos, como veterinários, medicação e ração, o que seria pertinente e justo.
Fato é que para que estes animais tenham alguma chance de conseguir bons lares, precisam ser colocados para adoção ainda jovens.
Assim, Scott CONTINUA, ATÉ O MOMENTO, CONFINADO EM UM CANIL a espera de uma adoção que nunca chega.
Bastariam tão somente os fatos até então citados nesta nota, para mostrar a negligência e o desrespeito contra animais praticados pela Prefeitura Municipal de Volta Redonda. Entretanto, a Prefeitura do município foi além, já que até o anuncio da licitação para compra do novo cão farejador, não previa orçamento para custeio com veterinários, e alimentação dos animais da Guarda.
Os atendimentos veterinários aos animais têm sido realizados pelo Centro de Controle de Zoonoses que por sua vez, informa e reforça aos contribuintes que não realiza atendimentos clínicos, e a ração é doada pelo Zoológico Municipal que licita o produto para seus animais.
Fica claro a gravidade das negligencias. Animais demandam cuidados, inclusive nos finais de semana. Nem mesmo com a oferta das ONGs, de consulta veterinária para o cão Scott, por suspeita de infecção urinária, foi realizada.
Boa alimentação, passeios, vacinação, antiparasitários e encoleiramento para evitar doenças como a leishmaniose, zoonose endêmica em nossa cidade, são condições básicas para o bem estar e segurança todo cão. Animais de trabalho não são exceção.
No entanto, para nossa surpresa e indignação, mesmo diante deste cenário, a Prefeitura Municipal de Volta Redonda lançou edital para compra de cães farejadores para integrarem o Grupamento de Operações de Cães da Guarda Municipal, com custo estimado de R$ 23.166,66.
No edital, existe a previsão de que o cão deve ser fêmea e não pode “ser castrado física ou quimicamente, além de ter todas as condições funcionais de reprodução”, o que também nos causou bastante estranheza, visto as denuncias já citadas nessa nota.
A Guarda Municipal mais uma vez, de forma imprudente e irresponsável, tenta reativar o grupamento canino. A cada nova gestão, uma nova tentativa, um novo cão, um novo erro. Scott, o único sobrevivente, é um estorvo para o Executivo e para a Guarda Municipal, assim como qualquer outro cão será com o passar do tempo ou em uma próxima gestão. Estas ONGs não compactuarão com práticas abusivas mascaradas de legalidade e idoneidade moral.
A Prefeitura de Volta Redonda menospreza a participação da sociedade em um tema altamente importante e impactante, já que em momento algum solicitou parecer técnico do Conselho Municipal de Proteção e Defesa Animal, ou de alguma das ONGs de proteção animal existentes no município.
Repudiamos assim, em razão do despreparo, da negligência, do desinteresse e do desrespeito da Prefeitura e da Guarda Municipal de Volta Redonda-RJ com os animais da GMVR, a inciativa do Executivo Municipal de abrir licitação para a compra de cão farejador, a pretexto de “proteger os bens, serviços e instalações do Município e de seus servidores e usuários”.
Repudiamos, enfim, assim como grande parte da população, qualquer tentativa da prefeitura local de adquirir novos animais de trabalho. Repudiamos, ainda, a forma que o cão Scott tem sido negligenciado nos últimos anos.
Volta Redonda-RJ, 01 de agosto de 2022.
Liz Guimarães - Presidente ONG Vira-Lata
Carmen da Costa Leite Marques - Presidente - SPA –VR”
